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Edifícios antigos, novas exigências: o desafio de reabilitar Lisboa

Arquiteta Leonor Antunes

15/07/2026

Em Lisboa, as obras de reabilitação representam cerca de 90% dos processos de obra. Este dado demonstra que o futuro da cidade se constrói, em grande medida, a partir dos edifícios que já existem. Reabilitar deixou de ser uma intervenção excecional para se tornar uma parte determinante da transformação urbana da capital.

No entanto, nem toda a renovação constitui uma boa reabilitação.


A pressão para adaptar rapidamente os imóveis às atuais exigências de conforto, eficiência e valorização imobiliária pode conduzir a intervenções que melhoram a aparência dos espaços, mas que descaracterizam os edifícios do ponto de vista arquitetónico e construtivo.


Lisboa é formada por diferentes camadas históricas. Nos seus bairros convivem edifícios pombalinos, construções oitocentistas, prédios de rendimento do início do século XX e exemplos da arquitetura moderna. Cada imóvel resulta dos materiais, das técnicas construtivas e das formas de habitar próprias do período em que foi construído.

Por essa razão, intervir num edifício antigo não é o mesmo que remodelar uma construção recente.


Estruturas de madeira, paredes de alvenaria, coberturas tradicionais, cantarias, azulejos, guardas metálicas e caixilharias fazem parte de um sistema que deve ser previamente compreendido. A alteração isolada de uma destas componentes pode provocar patologias, comprometer o equilíbrio da construção ou eliminar características relevantes para a identidade do edifício.



 



A dimensão deste desafio não se limita a Lisboa. De acordo com o mais recente recenseamento nacional da habitação, cujos resultados foram analisados pelo INE e pelo LNEC num estudo publicado em 2024, 50,2% dos edifícios habitacionais portugueses foram construídos até 1980. Em contraste, 3,1% dos edifícios existentes em 2021 tinham sido construídos entre 2011 e 2021. Estes números mostram que a conservação e a adaptação dos edifícios existentes serão temas centrais nas próximas décadas.


Antes de iniciar uma obra, importa conhecer o imóvel. A consulta dos antecedentes urbanísticos, o levantamento arquitetónico e a inspeção ao estado de conservação permitem identificar os elementos a preservar, as anomalias existentes e as condicionantes do projeto.


Deve também verificar-se se o edifício está classificado, integrado na Carta Municipal do Património ou localizado numa área sujeita a regras urbanísticas específicas. Entre os erros mais frequentes encontram-se a demolição de paredes sem conhecimento estrutural, a substituição indiscriminada de caixilharias, a remoção de cantarias e azulejos e a aplicação de materiais incompatíveis com as alvenarias antigas.


Preservar não significa impedir a transformação. É possível melhorar o conforto, renovar as instalações e adaptar os espaços a novas formas de habitar sem eliminar os elementos que conferem identidade ao imóvel.


Uma obra pode ser contemporânea e visualmente apelativa e, ainda assim, constituir uma má reabilitação.


A qualidade de uma intervenção não se mede apenas pela imagem final. Mede-se pela capacidade de prolongar a vida útil do edifício, respeitar o seu funcionamento construtivo e conservar os valores arquitetónicos que o tornam parte da história de Lisboa.


Reabilitar a cidade não deve significar, torná-la nova. Deve significar, prepará-la para o futuro sem apagar a sua memória.

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